História natural

Texto com o tema MUSEU, publicado na 4ª Revista do Centro de Pesquisa e Formação do SESC https://www.sescsp.org.br/online/artigo/11106_MARIANA+CARRARA?fbclid=IwAR0Of7R1AHTBEi4VxE7t1RbUU6faMOj9H0TcOLSYNkPGw6iKcTIY2w0g6S0

Os visitantes de hoje têm mochilas amarelas e alturas muito variadas, não entendo como podem ter a mesma idade e tantos tamanhos, são inquietos e podem derrubar os frascos, apontam uma raposa empalhada e perguntam se é pré-histórica, não sei se estou pronta pra tudo isso, não já, talvez eu precisasse de mais um mês, pelo menos mais um mês. Esta é uma aranha, mas não, não é uma aranha qualquer. 
Peço silêncio, não estão interessados na aranha porque é pequena, digo que essa aranha costuma aparecer embaixo do travesseiro das crianças que fazem barulho no museu. Tento rir, tento rir uma risada doce e ela não sai como eu esperava, sai como um complemento sinistro da minha ameaça. Todos me escutam e já não sei se tenho algo bom para narrar. 
Esta aranha alimenta seus filhotes muitos dias com a própria comida, a comida que ela tira da barriga sem nem aproveitar. As crianças me olham com nojo, têm nojo das suas mães, da comida já engolida pelas suas mães. Digo que eles também comeram mais ou menos assim por nove meses e tento rir de novo, eu precisava de mais um mês, pelo menos um mês. Mas depois, para que os filhos fiquem de fato muito grandes e muito fortes, ela abre todos os braços e se entrega aos filhotes que devoram a mãe aranha, pedaço por pedaço, e ela vai morrendo feliz, porque ela sabe que agora sim eles têm tudo que necessitam, eles precisam dela assim, morta, digerida. 
As crianças estão sentadas em volta de mim, os olhos variam de mim para o vidro com a aranha. Também devoram as mães, de alguma maneira, tenho certeza, as mães estão agora no calor lá de fora numa sala abafada dobradas sobre uma mesa calculando o mês, calculando o que vocês devoram por mês, e o que vai sobrar dela depois de tudo que vocês comerem. Este outro aqui, pequenino, é o piolho do mar, e a mamãe piolho do mar também tem uma história difícil. 
Quando vão nascer, os filhos começam a comer a mãe, por dentro, mordem e rasgam e engolem cada camada da mãe até que ela já não exista e, então, eles nasceram. 
Aqui temos o Polvo Gigante do Pacífico. Eles se animam com qualquer coisa que seja gigante, os calçados em sinfonia no emborrachado do piso, às vezes encolho os ombros achando que podem cobrir os ouvidos, não suporto o arranhão das solas no piso, não consigo. Um menino coloca as duas mãos no vidro do polvo e não quero repreender nada, quero que toquem em tudo, são animais mortos, encostem em tudo, esse museu é pra vocês, pra vocês tocarem essa morte que é bonita porque tem formol, tudo fica muito bonito no formol. 
A mãe Polvo Gigante do Pacífico fica muitos meses do lado dos ovos. Ela precisa passar os tentáculos o tempo todo em volta deles pra fazer circular a água e impedir que se encham de algas. Mas isso toma todos os segundos do dia e ela não pode ir atrás de comida, nem por um minuto. Algumas têm tanta fome que chegam a comer um dos braços. Depois de meio ano ali na toca, acariciando os ovos, sem comer, finalmente ela vê nascerem os primeiros filhos, e no seu último suspiro ajuda a nadarem na direção certa, e cai morta, exausta, os cem mil ovos eclodindo por cima. 
O que a mãe polvo faria se ainda tivesse forças e visse os filhos nascerem direto para a boca de um tubarão, o que ela faria, será que se revestiria de instintos e sobreviveria mais esse minuto para espiralar os tentáculos em hélice na boca do tubarão tentando arrebentar os dentes mas em vez disso apenas esfacelando as ventosas, difícil dizer o que faria essa mãe se estivesse passando o aspirador e visse um dos cem mil filhos em cima do móvel, assim muito perto da janela, não se sabe nem como pode ter conseguido subir ali, na verdade ele está exatamente na janela, mas existe o aspirador e um segundo é muito rápido, será que ela decidiria gritar por trás do barulho do aspirador, ou ela primeiro desligaria o aparelho, um dos tantos tentáculos alcançaria o botão muito depressa, a tempo de gritar que não, o filho não pode avançar nem mais um passo, ou será que ela largaria o aspirador e correria, mas um segundo é muito mais depressa que isso, a boca do tubarão arreganhando num buraco imenso, a mãe polvo não chegaria a tempo, talvez fosse melhor apenas morrer instantaneamente, de exaustão, em cima do barulho do aspirador que continuaria a serpentear contra as paredes do corredor no seu fôlego quente.
Isso nunca teria acontecido com a Mãe Polvo, talvez fosse isso que estivesse querendo me dizer o delegado, certamente era isso que ele me dizia enquanto eu girava tarde demais os meus oito tentáculos incrédulos perguntando onde estava o corpo como se isso tivesse alguma importância, porque a mãe polvo fica ali, o tempo todo colada neles, e nada pode acontecer, não descuidam nem para comer, os filhos não podem nadar para janelas nenhumas, é preciso ter oito braços, é preciso comer os próprios braços e estar muito perto, jamais junto do aspirador tão obstinado em tragar, sugar escandalosamente as impurezas todas, escondendo no seu resfolegar o som de uns pés pequenos em prateleiras, o ruído de uma escalada imprudente no metal de uma banqueta, posso imaginar o som da banqueta vacilando no piso, o som que faz o desequilíbrio, esse som a mãe Polvo escutaria, ali bem perto dos ovos, o aspirador quieto sufocando engasgado no fundo do oceano. 
As mães que passam aspirador e não escutam precisam voltar ao trabalho depois de um mês, apenas um mês, não dois, não três, menos tempo que a Mãe Polvo Gigante do Pacífico passa acariciando os ovos vivos, porque se estivessem mortos ela sairia dali imediatamente e cuidaria da sua vida. Ninguém protege ovos mortos.
Temos também estes gansos, meninos, olhem para o lado de cá. A mãe precisa pôr os ovos num penhasco muito, muito alto, porque é o único lugar que os predadores não alcançam. As crianças mordem as unhas enquanto exibo o vídeo, a cena do salto, os pais já voaram lá pra baixo, é a vez dos filhotes, os irmãos ensaiam, muitos gritos agudos na cara do abismo, as asas minúsculas numa agitação inútil, até que enfim arriscam, um pulo impossível, cinco minutos de queda, a cabecinha em cambalhotas nas rochas a cada dez metros, os pais com os pescoços erguidos contando as perdas, estimando as dores, depois esperando pra ver quais deles se levantam, se algum vai se erguer das pedras e segui-los, por muitos anos, porque é pra isso que eles têm de saltar, pra que pelo menos um deles siga vivo, crescendo bonito, muitas penas e plumas, até que fique tão grande e forte que mesmo quando se instalar o alarido implacável de um aspirador, e a janela se escancarar nas suas vertigens urbanas, ele apenas abra os braços e, em vez de morrer, voe.

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