A voz que devem ter os móveis infantis

Meu amor,

escrevo esta carta para avisar que nossa casa está pegando fogo. Não tive tempo de escapar, porque essas coisas, você sabe, não se notam logo, de repente as labaredas já alcançavam a saída. Aqui da mesa ainda se vê o contorno das cortinas da sala, você talvez achasse bonito o desenho do fogo que come por cima despegando o pano dos trilhos e tudo vai tombando em rasgos quentes, às vezes um vento vem de fora e cospe para dentro lufadas vermelhas de calor.

Parece que o foco começou há uns dois anos, dentro do nosso guarda-roupa, talvez os isqueiros que você esquece nos bolsos, ou quem sabe os meus vestidos, tão incendiários. Cheguei a sentir que a casa estava diferente, você insistiu que as casas são assim, com os anos ganham um quê de cinzas pelos cantos, nossos pés levando para a cama tanta fuligem, era melhor deixá-la em paz, a casa, nos seus novos ritmos e quenturas, uns estalos que me punham inquieta e de repente nós dois gritando mais forte do que o costume, eu querendo que a casa escutasse e você preocupado em forjar que não percebíamos, os sofás são caprichosos, qualquer coisa se ofendem, mas eu sabia, os estofados quando já não aguentam, veja só, são dos primeiros a explodir em brumas de algodão incandescente e logo já não amparam o sono de ninguém. Talvez o foco tenha começado de verdade no sofá, qual de nós dois passou mais noites nele, sua insistência em fumar aqui dentro nessas madrugadas em que não cabíamos ambos na cama, uma brasa escapou e se instalou sob as almofadas, fagulha disposta a se enfurecer mais tarde num rompante de cólera, agora é a casa toda que me traga.

Não digo que seja culpa sua, não pense uma coisa assim, diante de um pavio aceso há todo tipo de reação, é a casa quem não nos quis muito bem, incêndio é a melhor aniquilação, de nós não restará uma centelha, uma chispa, os russos foram queimando o próprio país pra que nada vingasse onde Napoleão chegaria, as terras devastadas, nossa casa sem frutas, as plantas já ardem desfolhadas os galhos encrespados nas chamas os vasos rachados desmanchando em avalanches de terras secas, dependendo do que vier a despencar por cima talvez daqui a duzentos e cinquenta milhões de anos se transformem em carvão.

Aquela úlcera no nosso colchão já pode queimar tranquilamente cáustica sem nosso peso doído por cima. O berço do filho que não tivemos, se existisse esse berço, estaria queimando agora e a madeira talvez estalasse muito mais aguda, na voz que devem ter os móveis infantis.

Quando acampamos sem saber acampar no monte que não suportamos subir eu me perguntei o que será que mantém duas pessoas juntas, seria a casa, eu concluí, é uma casa o que mantém duas pessoas juntas, os travesseiros os quadros escolhidos as plantas o cachorro o café os livros, você conseguiu enfim acender a fogueira, mas só depois que eu colhi muitos gravetos, e então descobri que uma fogueira não é exatamente agradável, meus olhos arderam tanto, quase como queimam agora, golfadas de luz que ressecam. Você não queria tanto uma fogueira?, você perguntou impaciente, mas eu não sabia do que eram capazes as fogueiras, tanta coisa que eu não sabia.

Começam a desmoronar as tábuas do telhado, vamos ficando também sem alicerces, o fogo talvez avance por baixo, já sinto um cismo, uma ebulição sob os tacos. Os encanamentos há tanto tempo inflamados soltam uns gritos agônicos, talvez a ferrugem a se espantar com o fogo que vence até mesmo as nossas águas.

O cachorro, coitado, ficou acuado num círculo de fogo que ele espanta em latidos roucos, os pelos chamuscados, duros, ele que nunca entendeu os nossos incêndios, já quase não respiramos, eu e ele, e aproveito para alertar que quando o fogo enfim tomar de vez o cachorro e ficar aqui um silêncio de estampidos e incinerações, já não valerá a pena você voltar, você não precisa chegar aqui e topar com tanto apagamento e carbonização, já não há o cão, nem a casa, nem eu, já nem haverá esta carta e, como sempre, você ficará sem entender.

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